
Curiosidades

Artigo Francis Flosi médico-veterinário e diretor da Faculdade de Medicina Veterinária Qualittas
O País que convive com milhões de animais
O Brasil é marcado por contrastes. Somos líderes globais na produção de alimentos e na pecuária bovina, e, ao mesmo tempo, uma das nações com maior população de animais de companhia. Cães, gatos, aves e bovinos convivem conosco em escalas gigantescas — e os números por trás dessa convivência dizem muito mais do que parecem à primeira vista.
Quando o campo supera a cidade em números
Segundo dados recentes do IBGE, o Brasil alcançou em 2024 cerca de 238 milhões de bovinos, número que supera a própria população humana do País, estimada em aproximadamente 212 milhões de habitantes. Nunca foi apenas sobre produção: esse dado evidencia o papel central da pecuária na economia, na ocupação do território e na inserção do Brasil no mercado global de alimentos.
Mas ele também impõe um questionamento inevitável: como produzir em larga escala respeitando os limites ambientais e o bem-estar animal?
A pecuária bovina e o peso da escala
O crescimento constante do rebanho brasileiro nos últimos anos revela a importância econômica dessa atividade, mas também os desafios sociais e ambientais que ela impõe: uso de terras, consumo de água, emissões de gases de efeito estufa, impactos sobre biodiversidade e manejo de dejetos. Ter quase 240 milhões de bovinos é uma responsabilidade que vai muito além da fazenda.
O crescimento silencioso dos animais de companhia
Ao mesmo tempo em que o campo abriga milhões de animais destinados à produção, as cidades revelam outro movimento silencioso — e profundamente humano. O Brasil abriga hoje cerca de 160 milhões de animais de estimação, de acordo com levantamentos da Abinpet e do Instituto Pet Brasil: aproximadamente 60 milhões de cães, 30 milhões de gatos, 40 milhões de aves ornamentais e milhões de outros animais que passaram a ocupar um lugar central nos lares brasileiros.
Afeto que transforma — e exige responsabilidade
Essa expansão não é apenas numérica. Ela reflete transformações sociais profundas: famílias menores, maior valorização do afeto, novos arranjos familiares e a consolidação dos animais como parte do núcleo emocional das pessoas. Em muitos lares, eles não são apenas companhia — são vínculo, acolhimento e presença.
Milhões de pets em situação de vulnerabilidade
Mas esse crescimento também escancara responsabilidades que ainda não conseguimos enfrentar plenamente. Estima-se que cerca de 4,8 milhões de cães e gatos vivam hoje em situação de vulnerabilidade social — animais que dependem de famílias com poucos recursos ou que enfrentam dificuldades de acesso a alimentação adequada, atendimento veterinário e cuidados básicos. Esse dado revela uma face menos visível da relação afetiva: o afeto sem preparo também gera sofrimento.
Dois mundos, um mesmo dilema ético
O contraste entre esses dois universos — o da produção animal e o da companhia — expõe um dilema ético contemporâneo. No campo, discutimos produtividade, sustentabilidade, emissões de gases de efeito estufa, uso da água e da terra. Na cidade, lidamos com abandono, reprodução descontrolada, sobrecarga de ONGs, clínicas veterinárias e políticas públicas insuficientes.
São relações diferentes com os animais, mas que compartilham um mesmo desafio: equilibrar necessidade humana, responsabilidade ambiental e respeito à vida animal.
Produção, cuidado e os limites do planeta
O crescimento é uma constante. O rebanho bovino brasileiro cresceu de forma contínua nas últimas décadas, enquanto a população de cães e gatos avançou rapidamente a partir dos anos 2000, impulsionada pela urbanização e por mudanças culturais. Essas curvas ascendentes não são neutras — elas exigem decisões técnicas, políticas e éticas cada vez mais qualificadas.
Sustentabilidade não é opção, é necessidade
Produzir mais com menor impacto, adotar práticas sustentáveis, investir em bem-estar animal, ampliar programas de controle populacional, estimular a adoção responsável e educar a sociedade não são caminhos isolados — são partes de uma mesma solução. Uma solução que passa, necessariamente, pela formação de profissionais preparados para lidar com realidades complexas.
Educação como eixo de transformação
Formar médicos-veterinários capazes de enxergar além do diagnóstico, compreender o impacto de suas decisões e atuar com ética, ciência e sensibilidade é um compromisso com o presente e com o futuro.
O papel estratégico da Medicina Veterinária
Em um País onde os animais ocupam um papel tão central na economia, no meio ambiente e na vida afetiva das pessoas, a Faculdade Qualittas assume como missão o desenvolvimento das habilidades técnicas, cognitivas e éticas dos médicos-veterinários brasileiros.
Conhecimento que gera impacto real
Presente em 20 estados, com polos educativos que integram qualidade, inovação e biotecnologia, a instituição atua para transformar números em consciência, e conhecimento em impacto real.
Formação profissional para realidades complexas
Os dados mostram que, seja na pecuária ou na vida urbana, o desafio é equilibrar crescimento e cuidado. E isso só é possível quando conhecimento, ética e responsabilidade caminham juntos.
Quando números se transformam em escolhas
No fim, os dados não falam apenas sobre animais. Eles falam sobre as escolhas que fazemos como sociedade — sobre como lidamos com o meio ambiente, com o afeto e com a vida de milhões de seres que dependem de nós.
O futuro que estamos construindo hoje
Cada decisão, cada política pública, cada ato de cuidado ou educação faz diferença. O futuro que queremos para o Brasil — e para seus animais — começa com consciência, preparo e ação.