
Alimentação

Artigo copilado Prof. Francis Flosi e médico veterinário e diretor geral da Faculdade de Medicina Veterinária Qualittas
Quando o cheiro do churrasco se espalha, ele anuncia mais do que uma refeição. Anuncia encontros, descanso, celebrações e momentos que ficam na memória.
Mas o que quase ninguém vê é que a qualidade da carne que chega à grelha não começa no açougue — ela nasce anos antes, no planejamento feito dentro das fazendas.
Cada corte macio, saboroso e seguro carrega decisões estratégicas tomadas com antecedência: cuidados com a saúde do rebanho, escolhas genéticas precisas, manejo nutricional adequado e tecnologias reprodutivas que impactam diretamente o resultado final.
No Brasil, o churrasco é quase um ritual. Cerca de 33% dos lares celebram o fim de ano com churrasco, e aproximadamente 29 milhões de brasileiros mantêm esse hábito semanalmente. Esse alto consumo transforma a carne bovina na estrela de quase 60% das grelhas do país — e amplia, na mesma proporção, a responsabilidade de quem produz.
O caminho da carne começa no planejamento reprodutivo. Programar o nascimento dos bezerros no momento ideal significa garantir melhor desempenho ao longo de todo o ciclo produtivo. É nessa etapa que se definem fatores decisivos como rendimento, maciez e padronização.
A escolha do sêmen utilizado na IATF (Inseminação Artificial em Tempo Fixo), muitas vezes feita cerca de três anos antes do abate, e a seleção criteriosa dos touros moldam o perfil do animal que, no futuro, chegará ao consumidor.
Nenhuma genética se sustenta sem sanidade. Protocolos eficientes de vacinação, vermifugação e controle de parasitas são essenciais para proteger as fêmeas, evitar perdas gestacionais e garantir uma produção contínua e saudável.
De acordo com a médica-veterinária Verônica Schvartzaid (Zoetis), o cuidado sanitário vai além do ganho econômico do produtor.
“A adoção de protocolos sanitários adequados permite maior produção de bezerros, melhora o status sanitário do rebanho e garante mais alimento disponível ao consumidor final, com segurança e qualidade”, explica.
Genética e tecnologia acelerando a excelência
O avanço da pecuária brasileira passa, cada vez mais, pela tecnologia. A IATF se consolidou como uma das principais ferramentas para acelerar o melhoramento genético, promover uniformidade do rebanho e aumentar a eficiência produtiva.
Animais mais homogêneos, melhor desempenho na cria e maior previsibilidade de resultados são ganhos que refletem diretamente no padrão da carne — um atributo cada vez mais valorizado por um consumidor atento e exigente.
Bem-estar e nutrição: detalhes que fazem toda a diferença
Além da genética e da sanidade, fatores como nutrição equilibrada e controle do estresse influenciam diretamente as características da carne. O bem-estar animal deixou de ser apenas um conceito e passou a ser um diferencial competitivo, determinante para qualidade, sustentabilidade e aceitação do produto.
Formar profissionais é fortalecer toda a cadeia
A eficiência da pecuária moderna depende de visão integrada e profissionais preparados para tomar decisões estratégicas.
O cuidado com a saúde e o desempenho dos animais deve ser encarado como um investimento essencial. Ele impacta diretamente a produtividade, a sustentabilidade e a qualidade da carne em toda a cadeia. Por isso, formar médicos veterinários capacitados, alinhados às novas tecnologias e às demandas do campo, é decisivo para o futuro da pecuária brasileira.
Mais do que produzir carne, o setor tem a missão de produzir confiança, qualidade e segurança alimentar. Isso só é possível com planejamento, ciência, tecnologia e capacitação contínua.
No fim, cada churrasco conta uma história. Uma história que começa muito antes da grelha — e que passa, obrigatoriamente, pelo conhecimento técnico, pela responsabilidade e pelo compromisso de quem trabalha para alimentar milhões de pessoas todos os dias.
👉 Investir em sanidade, genética e formação profissional não é apenas uma escolha técnica. É uma decisão que transforma toda a cadeia da carne.