
Curiosidades

Artigo
Por Francis Flosi
No silêncio absoluto de um glaciar suíço, alpinistas se depararam com uma cena que une história, ciência e emoção: o corpo preservado de um cão de resgate da Segunda Guerra Mundial, ainda com sua alforja da Cruz Vermelha contendo pequenos frascos médicos e mapas cuidadosamente dobrados.
O gelo — implacável e silencioso — conservou não apenas um animal, mas um símbolo.
Historiadores acreditam que o cão estava em missão, atravessando terreno alpino perigoso para levar suprimentos a soldados feridos. Em algum momento, o clima severo ou o deslocamento do glaciar interrompeu sua trajetória. A missão ficou inacabada. Mas sua história, não.
Como médico-veterinário, essa descoberta me leva a uma reflexão profunda sobre o papel dos animais em contextos extremos. Durante a Segunda Guerra Mundial, milhares de cães foram treinados para atuar em resgates, transporte de medicamentos, localização de vítimas e apoio emocional às tropas. Eles não eram apenas auxiliares — eram parte ativa das estratégias de sobrevivência.
A literatura histórica reforça essa importância. Reportagens da BBC, da National Geographic e da Smithsonian Magazine destacam como cães desempenharam funções decisivas em operações militares, muitas vezes enfrentando riscos equivalentes aos dos soldados.
Essa descoberta também dialoga com a ciência ambiental. O derretimento acelerado dos glaciares — fenômeno amplamente estudado por instituições como a NOAA — tem revelado artefatos históricos preservados por décadas ou até séculos. O gelo funciona como uma cápsula do tempo, mantendo tecidos, objetos e registros praticamente intactos.
Mas, para além do fato histórico, o que mais me toca é o significado.
Esse cão carregava suprimentos médicos. Carregava cuidado. Carregava esperança. Em meio à brutalidade da guerra, havia ali um ser treinado para salvar vidas.
Na Medicina Veterinária, aprendemos que a relação entre humanos e animais é baseada em confiança, cooperação e responsabilidade. Em cenários de guerra, desastres ou resgates modernos, essa parceria continua viva. Cães ainda atuam em missões de busca, salvamento e apoio emocional, provando que sua contribuição transcende gerações.
A missão daquele cão talvez não tenha sido concluída. Mas sua história ecoa como um testemunho de lealdade e coragem.
Em tempos em que discutimos tanto tecnologia e inovação, vale lembrar: a bravura não é apenas humana. Ela também tem quatro patas.
E mesmo sob camadas de gelo, ela permanece.
Prof. Francis Flosi é Médico-Veterinário e Diretor Geral da Faculdade de Medicina Veterinária Qualittas
Fontes
BBC: Os animais que serviram na Segunda Guerra Mundial
National Geographic: Como os cães ajudaram a vencer a Segunda Guerra Mundial
Smithsonian Magazine: O papel vital dos animais em tempos de guerra
Reuters: O derretimento dos glaciares revela artefatos do passado
NOAA: Como os glaciares preservam objetos históricos